| A audição |
| Perdas
e prevenção da acuidade auditiva |
Nas grandes cidades
estamos muitas vezes expostos a uma série de barulhos, algumas vezes muito
prejudiciais ao nosso sistema auditivo. É conhecido que sons de intensidade
superior a 85dB são já considerados de risco.
Contudo, é também necessário avaliar os seus efeitos, tendo em conta o tempo
de exposição. É que quando o ouvido é "agredido" com uma
intensidade de pressão acústica elevada, ele necessita de tempo para recuperar.
Se a "agressão" for contínua, o ouvido não repousa, pelo
que existe o risco de perda de sensibilidade auditiva.
1.
Perdas auditivas:
Geralmente associamos perdas auditivas a pessoas com idade avançada. No entanto, apesar do factor idade ser importante, existem muitas outras causas para além do próprio processo natural de envelhecimento, tais como factores hereditários e/ou patológicos, ou perdas devidas à exposição prolongada a níveis de intensidades sonoras acima das recomendadas. As perdas devidas ao processo de envelhecimento natural costumam designar-se por presbicusia e resultam da morte gradual de células ciliadas ao longo da vida. Normalmente classificam-se as perdas auditivas nas duas seguintes categorias:
As perdas auditivas podem também ser classificadas pelo seu grau de gravidade em perdas mínimas, suaves, moderadas, severas e profundas. O grau de severidade é determinado pelo nível de intensidade sonora que alguém pode ouvir sem a ajuda de uma aparelho auditivo.
Quando nascemos
temos aproximadamente 40000 células ciliadas, número este que vai diminuindo
à medida que envelhecemos. O processo
de envelhecimento afecta sobretudo a sensibilidade a frequências superiores
a 1000Hz. Note-se que, por exemplo, à idade de 70 anos, a perda à frequência
de 4000Hz atinge 60dB. É claro que estes valores são uma média, podendo verificar-se
tanto situações não tão dramáticas como situações muito piores. Este cenário,
ao qual não podemos escapar, poderá ser agravado caso não respeitemos as recomendações
quanto aos limites máximos de exposição à poluição sonora. Esses limites
podem ser consultados na tabela seguinte:
| Valores de intensidade de pressão acústica |
Tempo máximo de exposição diária. |
| 85 dB |
8 horas |
| 90 dB |
4 horas |
| 95 dB |
2 horas |
| 100 dB |
1 hora |
| 105 dB |
30 minutos |
| 110 dB |
15 minutos |
| 115 dB |
7 minutos |
| 120 dB |
3 minutos |
| Maior do que 120dB |
Risco imediato de perdas auditivas irreversíveis |
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Pode notar-se
nesta tabela que, para uma intensidade de 85 dB, o tempo máximo de exposição
é de 8 horas. Este valor vai diminuindo para metade por cada aumento
de 5dB. Repare-se também que o tempo máximo de exposição para uma intensidade
sonora de 110dB é
de 15 minutos. Esse valor é ainda mais impressionante
quando notamos que em qualquer discoteca ou concerto a intensidade ultrapassa
quase sempre essa intensidade (Tabela 2). Este valor é também
muitas vezes encontrado em circunstâncias aparentemente tão inocentes
como ouvindo um walkman ou o som de uma sala de cinema. A tabela seguinte
apresenta alguns cenários, por ordem crescente do risco envolvido.
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Intensidade
de pressão acústica |
||||||
| 10-20 dB |
40-45 dB |
60-65 dB |
85-90 dB |
100-120 dB |
120-130 dB |
140-... dB |
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| Cenário Típico |
-Espaço aberto, sossegado. -Barulho provocado pela respiração -Tique-taque de um relógio -Sussurro |
-Conversa em espaço aberto. -Barulho de água a correr. |
-Ruído de tráfego citadino. |
-Ruído de maquinaria pesada. -Batedeira de bolos. -Aspirador. -Motociclo a 5m. -Fábrica ruidosa. |
-Escavadoras de pressão. -Britadeiras. -Música tão alta que é muito difícil
conversar entre duas pessoas. -Jacto voando a baixa altitude. -Barco a motor a 10m. |
-Concerto rock ao vivo -Casa das máquinas de
um navio. |
-Disparo de uma arma
de fogo ou dinamite. |
| Sensação |
Parcialmente audível |
Som sossegado e agradável |
Ruído citadino normal |
A exposição prolongada pode provocar perdas irreversíveis |
O ruído provoca desconforto |
Para a maioria das pessoas este é o limiar da dor. |
Uma simples exposição pode causar perdas permanentes. |
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A exposição a ruído de intensidade superior à recomendada pode causar uma
perda da audição temporária denominada de desvio temporário dos limiares, algo que um período de repouso e silêncio
pode corrigir. Essa perda manifesta-se principalmente nas altas frequências,
sendo apercebida como um abafamento dos sons que pode ser acompanhada do chamado
tinnitus, algo que acontece frequentemente
depois das duas primeiras horas de exposição. Contudo, uma exposição regular
e prolongada a intensidades de som acima das recomendadas pode causar um desvio
permanente dos limiares de audição, algo que não é medicamente recuperável.
Alguns estudos efectuados revelam diferenças de 25dB, a certas frequências
entre um adulto saudável de 30 anos e um outro que repetidamente esteve exposto
a intensidades sonoras de 100dB.
Mas existem outros problemas associados à exposição a intensidades de ruído
elevadas. Pessoas que vivem em ambientes barulhentos têm maior risco de ataques
cardíacos, distúrbios psicológicos,
problemas com o sono e
sofrem geralmente de nervosismo, entre
outros problemas.
O
tinnitus é uma sensação de ruído no ouvido (zumbidos)
na ausência de qualquer sonoridade exterior, estando comummente associado
a perdas auditivas. O principal sintoma é a presença de ruídos
vibrantes, "atroadores", zumbidos, sons sussurrantes ou parecidos
com assobios e que apenas quem sofre da doença ouve! Eles podem ser
esporádicos, por vezes síncronos com a actividade cardíaca,
ou contínuos, variando geralmente em intensidade e notando-se sobretudo
quando a intensidade de som no ambiente é pequena.
Não
se conhece com exatidão a causa do tinnitus, mas ele é
um sintoma comum em muitos problemas auditivos como os que se seguem:
4.
Medidas de protecção:
Qualquer pessoa que se exponha a uma dose de ruído equivalente a 8 horas acima dos 85 dB, deve estar guarnecida de protecção adequada. Tal deve ser o caso de operários fabris, operadores de máquinas ou outras profissões de risco. Existem no mercado vários tipos de protectores que agem como barreiras ajudando a reduzir a potência das ondas sonoras que entram no ouvido. Essa redução assume regularmente valores entre cerca de 20 e 30dB. Estas protecções podem tornar-se algumas vezes incómodas por várias razões, algo que leva muitas pessoas a pô-las de parte. Eis alguns desses problemas:
Contudo, os modelos de protectores auriculares mais recentes são construídos com material esponjoso muito suave que se adapta confortavelmente à anatomia de cada um e que, após um pequeno período de adaptação, evitam as razões de desconforto anteriormente apontadas.
Independentemente
desta discussão, é absolutamente consensual que a
utilização de protecção auditiva é indispensável
para a preservação de uma boa acuidade, quando as intensidades
de som são superiores a 85 dB! Existe uma gama muito variada de protectores
para os ouvidos. A tabela seguinte seguinte apresenta alguns exemplos.
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| Tabela 3 - Exemplos de protecções auditivas. | ||
Apesar da grande quantidade de protecções disponíveis no mercado, a melhor estratégia continua a ser simplesmente evitar a exposição prolongada a sons intensos. Convém também lembrar que os ouvidos estão sempre a trabalhar, sendo por isso necessário estarmos atentos para eventuais situações que possam por em causa a sua integridade.
Por último aconselha-se que, na ausência de protecção auditiva mais apropriada, o recurso a materiais vulgares e de fácil acesso como bolas de algodão, mas que não "agridam" fisicamente o canal autitivo, apesar de proporcionarem uma protecção muito modesta, não são de ignorar pois trazem sempre algum benefício.
© 2002 - Humberto Fonseca, Vasco Santos, Aníbal Ferreira