A audição

Constituição do sistema auditivo humano

O ouvido humano pode ser separado em três grandes partes, de acordo com a função desempenhada e a localização. São elas: o ouvido externo, o ouvido médio e o ouvido interno. Segue-se então uma vista panorâmica do sistema auditivo humano na qual as suas três zonas constituintes são discriminadas.

autores: Stephan Blatrix, Rémy Pujol

Figura 1 - Vista panorâmica. (Passe com o rato por cima da imagem para ver as legendas)

1. O ouvido externo

Fazem parte do ouvido externo o pavilhão auricular e o canal auditivo, cujas funções são recolher e encaminhar as ondas sonoras até ao tímpano. É também no canal auditivo que se dá a produção de cera, que não é mais do que uma forma de este se manter húmido e limpo. Isto porque a cera ajuda a reter partículas de pó, sujidade e microorganismos. Será importante referir que os vulgares cotonetes não devem ser introduzidos no canal auditivo. Isto porque ajudam a empurrar a cera contra o tímpano podendo danificá-lo ou, no mínimo, formar uma barreira que dificulta a audição.

O pavilhão auricular é muito desenvolvido em muitas das espécies de mamíferos terrestres (sendo fundamental na localização de presas e de predadores) e é dotado de movimento. Com a evolução da nossa espécie, essa capacidade foi-se perdendo. Contudo, existem humanos que ainda hoje conseguem produzir pequenos movimentos com as orelhas.

2. O ouvido médio

O ouvido médio, também denominado de caixa timpânica, representado com algum detalhe na Figura 2, é uma cavidade com ar, por detrás da membrana do tímpano (4), através da qual a energia das ondas sonoras é transmitida, do ouvido externo até à janela oval na cóclea, esta já no ouvido interno. Essa transmissão de energia é efectuada através de três ossos minúsculos (o martelo (1), a bigorna (2) e o estribo (3)), que vibram, solidários com o tímpano. Estes três ossos (seis, se contarmos com os dois ouvidos) são os mais pequenos que podemos encontrar no corpo humano. No ouvido médio existe ainda um canal, em parte ósseo, em parte fibrocartilagíneo, denominado de trompa de Eustáquio (6), que o mantém em contacto com a rinofaringe. Esta é a forma encontrada pela natureza de manter uma pressão constante no ouvido médio. Para que isso possa acontecer, a trompa de Eustáquio abre e fecha constantemente.

A membrana do tímpano é, na realidade, constituída por três camadas, sendo a camada exterior uma continuação da pele do canal auditivo. A parcela superior da membrana denomina-se de pars flaccida, enquanto que a parcela inferior se chama pars tensa. É na parte central da pars tensa que se localiza a área vibrante activa, em resposta a um estímulo sonoro. A membrana timpânica é uma estrutura auto-regenerativa, sendo por isso capaz de corrigir um furo na sua estrutura.

A cadeia de pequenos ossos, as suas articulações e ligamentos estão revestidos por uma mucosa e pode tornar-se mais ou menos tensa, pela acção de dois pequenos músculos, o do martelo e o do estribo. Através deste mecanismo é possível limitar a transmissão de energia para o interior da cóclea (algo que é útil para evitar danos no ouvido interno quando estamos expostos a sons de intensidade elevada).

 

Legenda

1. Martelo

2. Bigorna

3. Estribo

4. Tímpano

5. Janela Redonda

6. Trompa de Eustáquio

 

autores: Stephan Blatrix, Rémy Pujol

Figura 2 - Ouvido médio em mais detalhe.

3. O ouvido interno

É no ouvido interno ou labirinto que se encontra a parte mais importante do ouvido periférico (o que se encontra entre o pavilhão auricular e os nervos auditivos). É ela a cóclea, em forma de caracol e responsável em grande parte pela nossa capacidade em diferenciar e interpretar sons. De facto, desenrola-se na cóclea uma função complexa de conversão de sinais, em resultado da qual os sons nela recebidos (do tipo mecânico) são transformados em impulsos eléctricos que "caminham" até ao cérebro pelo nervo auditivo, onde são depois descodificados e interpretados. Como se pode ver na Figura 3, a cóclea parece uma concha do mar, sendo constituída por um "tubo" ósseo enrolado sobre si próprio, com as dimensões aproximadas de uma ervilha.

 

Legenda

1. Canais semicirculares

2. Nervo Auditivo

3. Membrana Basilar

4. Cóclea

 

autores: Stephan Blatrix, Rémy Pujol

Figura 3- Ouvido interno em mais detalhe.

Para além da cóclea, no ouvido interno encontra-se também o labirinto vestibular, constituido pelo sáculo (4) e pelo utrículo (14), que são os órgãos do sentido do equilíbrio e que informam o nosso cérebro sobre a posição do corpo no espaço. Repare-se na figura seguinte. Os canais semicirculares laterais, anteriores, e posteriores fazem também parte do labirinto vestibular, informando o cérebro sobre o movimento rotatório no espaço. A informação proveniente do labirinto vestibular e da cóclea é transmitida ao cérebro pelo nervo auditivo, como ser pode verificar na Figura 3.

 

Legenda

1. Canal Semicircular Anterior

2. Canal Superior

3. Canal Lateral

4. Sáculo

5. Ducto Coclear

6. Helicotrema ou Apex

7. Canal Lateral

8. Canal Posterior

9. Canal Posterior

10. Janela Oval

11. Janela Redonda

12. Ducto Vestibular (Scala Vestibuli)

13. Ducto Timpanico (Scala Tympani)

14. Utrículo

autores: Stephan Blatrix, Rémy Pujol

Figura 4- A cóclea e os canais semicirculares.

 

O "tubo" ósseo enrolado que constitui a cóclea encontra-se dividido em toda a sua extensão em três secções, estando todas preenchidas com um fluído semelhante à água. A primeira denomina-se de scala vestibuli (rampa vestibular) e está ligada à janela oval, enquanto que a última, a scala tympani (rampa timpânica) se encontra ligada à janela redonda. Estas duas secções unem-se apenas no fim da cóclea, no chamado helicotrema, e estão separadas por uma terceira secção denominada de ducto coclear. A separação entre as três secções referidas é efectuda por duas membranas. Assim a separar a scala vestibuli do ducto coclear encontra-se a membrana de Reissner e entre o ducto coclear e a scala tympani está a membrana basilar. A membrana basilar é muito importante pois é ela que suporta o orgão de Corti. No orgão de Corti localizam-se as células ciliadas que, quando agitadas pelas vibrações sonoras, produzem impulsos eléctricos que o cérebro descodificará. Na figura seguinte podemos observar um corte transversal da espiral coclear, sendo de notar as três secções referidas.

 

Legenda

1. Ducto Coclear

2. Scala Vestibuli

3. Scala Tympani

4. Espiral Ganglionar

5. Nervo Auditivo

autores: Stephan Blatrix, Rémy Pujol

Figura 5 - A cóclea seccionada.

 

As Figuras 6 e 7 mostram o órgão de Corti que, como já referido, aloja as células ciliadas, assentando sobre a membrana basilar e seguindo a estrutura em espiral da mesma. Como pudemos já verificar, um som normal pode ser obtido como a soma de sons elementares com frequências diversas. Devido às características muito particulares da cóclea, cada uma dessas frequências excita uma determinada zona da membrana basilar, estimulando assim apenas as células ciliadas que aí se encontram. Esta particularidade, explorada mais aprofundadamente no tópico seguinte, constitui a razão da nossa capacidade em diferenciar sons de tonalidades (ou frequências) diferentes.

 

Legenda

1. Ducto Coclear

2. Scala Vestibuli

3. Scala Tympani

4. Membrana de Reissner

5. Membrana Basilar

6. Membrana Tectória

7. Stria Vascularis

8. Fibras

9. Espiral Laminar

autores: Stephan Blatrix, Rémy Pujol

Figura 6- Desenho de um pormenor de um corte transversal da cóclea.

 

Podemos verificar, analisando a Figura 7, que existem dois tipos de células ciliadas: as células ciliadas interiores (1) e as exteriores (2). É também possível verificar que a membrana tectória (6), imersa em endolinfo, cobre os dois tipos de células. Há três filas de aproximadamente 12000 células ciliadas exteriores. Embora sejam em muito maior número do que as células interiores, recebem apenas aproximadamente 5% das inervações das fibras do nervo auditivo. Estas células contêm uma espécie de filamentos musculosos que contraem quando estimulados e "afinam" a resposta da membrana basilar. Por causa deste efeito, as células ciliadas exteriores saudáveis soarão no seguimento de um estímulo sonoro. Ou seja, elas próprias produzem um pequeno som depois de serem estimuladas. Esta é também a razão que está na origem de certas perturbações, causando os conhecidos zumbidos (tinnitus).

As células ciliadas internas distribuem-se ao longo de uma fila com aproximadamente 3500 células. Estas células recebem aproximadamente 95% das enervações das fibras do nervo auditivo, sendo as principais responsáveis pela produção da sensação de audição. Quando danificadas provocam perdas auditivas acentuadas e irreversíveis.

 

Legenda

1. Células Ciliadas interiores (CCI)

2. Células Ciliadas exteriores (CCE)

3. Tunel de Corti

4. Membrana Basilar

5. Membrana Reticular

6. Membrana Tectorial

7. Células de Deiter

8. Espaço de Nuel

9. Células de Henson

10. Sulco da Espiral Interior

autores: Stephan Blatrix, Rémy Pujol

Figura 7- Pormenor esquemático de uma secção transversal do órgão de Corti.

 

Nas Figuras 6 e 7 é ainda possível observar a chamada membrana tectória (6), uma membrana delicada, flexível e gelatinosa que cobre as células cíliadas interiores e exteriores. Os cílios (tufos parecidos com cabelo que se extendem à superficie das células ciliadas) das células exteriores estão encaixados na membrana tectorial. Nas células interiores, os cílios podem ou não estar encaixados na membrana tectória. Quando um estímulo sonoro provoca oscilações na membrana basilar, a membrana tectória move-se, estimulando assim os cílios.


© 2002 - Humberto Fonseca, Vasco Santos, Aníbal Ferreira